Todo mundo ganhou mais - mas não do mesmo jeito

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Distribuição de renda no Brasil entre 2023 e 2025 com microdados da PNAD Contínua.
Autor

Fábio Rocha

Data de Publicação

22 de março de 2026

A renda média do trabalho cresceu no Brasil entre 2023 e 2025 — e isso é, sim, motivo de comemoração. Mas médias escondem realidades muito distintas ao longo da distribuição. Quem ganhou mais? Quem ficou para trás?

Para responder, fomos aos microdados da PNAD Contínua e comparamos o rendimento real de todos os trabalhos entre o 1º trimestre de 2023 e o 3º trimestre de 2025. A análise foi feita por quantis da distribuição: p25, p50, p75, p90 e p99.

A curva da desigualdade

O primeiro gráfico já entrega o recado antes dos números: a distância entre os períodos cresce conforme subimos na distribuição. Nos quantis mais baixos, as duas curvas caminham juntas. No topo, elas se separam com clareza.

Quem cresceu mais - em termos relativos?

Quando abrimos a distribuição por quantis, a heterogeneidade fica evidente:

  • p25 (25% mais pobres): +4,7%
  • p50 (mediana): +5%
  • p75: +19,3%
  • p90 (topo intermediário): +23,1%
  • p99 (topo extremo): +10,5%

O crescimento foi real — mas fortemente concentrado no topo intermediário da distribuição. A mediana, que representa o trabalhador típico, praticamente não se moveu.

E em reais?

Em valores monetários, a concentração fica ainda mais evidente. O trabalhador no topo da distribuição (p99) ganhou, em média, R$ 2.370 a mais por mês do que ganhava em 2023. O trabalhador na base (p25) ganhou R$ 69. A mediana, R$ 100.

O retrato completo

O gráfico abaixo reúne os níveis de rendimento nos dois períodos para cada quantil, permitindo uma leitura direta da evolução da distribuição.

Em resumo

Houve crescimento real da renda no Brasil entre 2023 e 2025 — e isso importa. Mas o padrão é heterogêneo: a base avançou pouco, a mediana praticamente estacionou, e o topo acelerou de forma expressiva.

Esse tipo de análise distributiva é essencial para avaliar políticas de renda com mais precisão. Dizer que “a renda cresceu” sem abrir a distribuição é, no mínimo, incompleto.


Nota

Nota metodológica: os rendimentos foram deflacionados pelo índice Habitual disponível nos microdados da PNAD Contínua. A comparação utiliza o 1º trimestre de 2023 e o 4º trimestre de 2025. O código completo está disponível no repositório do Núcleo MAPA.